Centenária

Ainda era inverno
Deu início a vida
Naquele tempo mais rude
Só trinta da escravidão abolida

Do ventre de Caratinga
Na terra dos Aimorés
Da Folia dos Reis
Cidade de muita cantiga
Pois os pés

Só trinta da escravidão abolida
Era inverno
Era um governo
De flagelar ferida

Com esmero
De uma sociedade elitista
Num acelero
Trabalhou-se a ciência eugenista

O povo preto tava como?
Sem sossego onde emprego
Até hoje se nega
Essa República pós-abolição
Racismo de fato
Entre o desprezo
E a literatura de Monteiro Lobato
Minha Vó estava pega

Faleceu sua mãe
Onde só alguns comovem
Entre irmãs e irmãos
Eram nove

Ficou difícil a lida
Como eu já disse
Era trinta e pouco
Da escravidão abolida

Ela sete de idade
Foi dada a um juiz
De Caratinga ao Caxambu
Mudando de cidade

Trinta e pouco abolida
Escravidão foi nada
Com sete anos fazendo comida
Pros brancos, foi ser empregada

A 5h da matina levantava
Subia num banquinho
não alcançava o fogão,
mas, cozinhava
Suas vestes
Saco de farinha de trigo
Que lavava e engomava
Tudo certinho
Todos achavam lindo
Achavam que era linho

A escravidão tava abolida
Mas só quarenta
Ela: doze anos, o alfabeto nem depois
Até hoje como encanta quando senta
Quando conta revolução de 32

Era cinquenta
Da escravidão abolida
Minha Vó
Escravizada/empregada foi buscar
A liberdade concedida

Aguentou até os vinte
Moça preta
Já entende, já fala
Comprou mala
Como se comprava naquele tempo
Prestação na caderneta

E arquitetou sua fuga
Já rezava, tinha fé
Num dava mais a casa grande
Então numa madruga
Meteu o pé

Junto com uma família
Quilombola e de alegria
E mesmo sem escrever
Assinou sua alforria

Mulher forte
Sempre rezadeira
De Caxambu pro RJ
No Bairro de Laranjeiras

Lá ficou bem pouco
Já vindo pra São Paulo
De novo empregada
Com salário irrisório
E pra começar assim de provisório
Melhor que nada

Eram uns sessenta
Da escravidão abolida
Ela por si só, resolveu
Deixar a dor menos doída

Sempre na igreja
Conheceu seu Oswaldo
Que amou nesses trilhos
Buscando a paz
Ele, um terreno de respaldo
O vovô tinha dois filhos
Em Batatais
No Juizado de Menores
A Vovó mandou trazer
Sorrindo
Fica com nois
A escravidão, vamos abolindo

Centenário
Da escravidão abolida
E a Vovó anfitriã
Vendo diariamente
Sua comunidade detida
A paz violentada
Transgressões
Dos caras de corpos e mentes fardadas

Seu povo dado à sorte
O destino tentando entender
Entre prisões brigas e mortes
Sempre um motivo pra renascer

Nesses cento e trinta
Da escravidão abolida
E a nossa senhora
Com uma mente visionaria
A quem duvida
Eu não duvido
Que a Vovó anfitriã
É Centenária