Akins Kintê

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Invadindo Sossegados Sonhos Alvos

-Estamos perdendo o controle da situação! Gritou o Prefeito atrás de uma mesa.
Na Favela do Moinho o caldo engrossou para a tropa de choque, convicto o Prefeito acreditava que derrubaria os barracos e o Centro Cultural Palmares sem preocupações, o lugar tinha uma boa localização, era em uma área tranqüila da cidade no final da Rua Três Flores.
Arquitetara em sua cabeça os dólares, pois construiria na favela um belo condomínio com shopping, clube aquático e um mundinho virtual para seus filhos e a sua geração futura. No entanto, um insolente negrinho em cima de sua casa avistou a tropa de choque, sendo o primeiro a defender o seu espaço.
Sabia da ação dos policias, não esperou atuarem, atirou o pedregulho e acendeu o rojão alertando a quebradinha e quando a pedra acertou o cinzinha, os moradores já tinham em suas mãos paus e pedras, o tumulto se alastrou pelos becos e vielas, protegeram com unhas e dentes o Centro Cultural Palmares e suas moradias.
O fato despertou a atenção da mídia, com isso conseguiram negociar uma quantia mensal e firmarem moradia na Favela do Moinho.
Atracaram o barco de notas do Prefeito e seu plano fora por água abaixo, enquanto isto na comunidade, leve sonhos percorriam o semblante dos moradores e para esfriar a cabeça e esquentar o coração, noite enluarada e os poemas passeando suave nos lábios carnudos do pessoal.
O Prefeito na reunião tragava o cigarro nervosamente, as cinzas, depois a brasa e depois a nicotina de seu fumo, era como ele próprio, um rosto avermelhado e um par de olhos cinzentos, o suor escorria pela testa, limpou o rosto com a costa de sua mão, olhou de relance para a palma, percorreu pelos seus braços um calafrio. O traço que riscava seu futuro não lhe mostrava um bom destino. Seu paletó ensopado de susto, suas banhas por baixo de sua camisa branca transpiravam o medo. O Secretário de Segurança tentou acalma-lo:
- Senhor Prefeito, a situação não está tão ruim, o helicóptero do deputado apreendido, que nos endereçava, agora vem como preço de banana, os 445 kg está chegando pra gente, sem preocupações. Apreendemos centenas de jornais clandestinos que inspiravam revoltas nos guetos e mais aquele jovem, o tal Pedro, foi preso e a professora Malika Mahin já está fora de circulação.
O Secretário de Segurança comunicava os últimos acontecimentos esfriando as cabeças da cúpula, a reunião acontecia no fundo de um galpão, o recinto servia como casa há dois dias para o Prefeito, o Secretário e o Empresário, que não arredavam o pé dali, lugar seguro e cedido pelo Coronel. O plano não podia vazar, então escolheram uma sala com paredes mais rochosas caso a conversa escorressem para o ouvido público, suas imagens seriam manchadas de sangue. O Empresário arriscou um sorriso, excitado com as notícias do Secretário de Segurança.
Nas duas salas adiante, que servia como compartimento de comunicação, o Tenente tentava se comunicar com a viatura 734 QP:
- Soldado Soares na escuta? Responda!
Sem sucesso.
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Ao doce beijo instigando desejo de querer ficar, Akilah se foi, com a promessa de voltar, tinha um compromisso de tamanha responsabilidade que nem Jorginho poderia saber, ficou ele só, solitário no barraco. A vitrola ainda tocava Billie Holiday, sabia que ela gostava da cantora, Akilah se encantava fácil no compasso da poesia e a voz da cantora, era um convite ao prazer, à luta e a busca por justiça. Foi saindo da favela sonhando Jorginho e Jorginho sonhava com a quilombela, a pele reluzente o cabelo trançado, juntando-se ao jeito de seus lábios carnudos, era toda uma paisagem noturna. Ele presenteado por ela com a Biografia do Malcolm X, lia e sentia cada vez mais sintonizado nas idéias com a pretinha. Billie Holiday cessou seu canto, Akilah encontrou o asfalto, o ponteiro do relógio já se arrastava para vinte horas, estava um pouco atrasada para reunião. Gostava da comunidade, era como se o Moinho fosse a sua casa, as pessoas hospitaleiras, a garota moradora da Divinéia dividia um quarto com sua mãe. Seu nome de certidão, Caroline, de renascimento e batismo Akilah, desde a infância apegada aos livros e na adolescência se encantou com as histórias das independências africanas, conheceu o Instituto João Cândido que era uma organização formada pelos jovens do Moinho, onde discutiam problemas raciais e também organizavam protestos, tinha de contentamento um grande feito, uma biblioteca no Centro Cultural Palmares. Ela sabia que o Prefeito iria tentar a desocupação, as batidas policiais eram quase semanais e a nova onda eram os incêndios, como ocorreram semanas antes dessa tentativa de reintegração de posse. A Cúpula cobiçava aquela terra há tempos, na noite que a tropa de choque invadiu com esse intuito, ela estava presente, viu os policias levando o Kenyatta, o garoto foi autuado por agressão e desacato a autoridade, Akilah ficou triste, mas sabia que naquela organização ninguém temia a prisão, pois ficou acertado no Instituto João Cândido que defenderiam a Favela do Moinho custasse lá o que fosse.
Akilah chegou a tempo para a reunião.

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Ouviu e não foi pouco dos companheiros, o Memeco Contenção errou e tentou se explicar:
- Fiquei na moita, fiz três bomba, taquei quando vinha na direção da quebrada, ceis tinham que vê as quatro roda pra cima. Depois das tentativa da tomada, depois dos tapa na cara, ceis que é o que? Eles me arrastar também? Sumisse com meu corpo? Inventasse troca de tiro depois de acerta minha testa? Ceis quer o que?
- trabalhamos no coletivo, cê tem sangue no olho, a gente sabe, mas se não tiver inteligência, se a gente não trocar umas ideias, essa ação é burrice.
Akilah dizia com os olhos em brasa. Memeco Contenção não poderia ter agido sem o consentimento das companheiras e companheiros, ainda mais, no dia da ação - molecagem dele - pensou ela.
O Instituto João Cândido trabalhava em prol da quebrada, sem ligação com partidos políticos, empresas, ou qualquer dinheiro sujo que chegasse através da exploração dos trabalhadores. No grupo existiam duas peças de grande importância, a professora Malika, que por perseguição se retirou da favela, mas quando presente incentivava a leitura doando livros, organizando palestras com temas voltados a auto estima e também sobre a resistência negra, além de ser uma bela contadora de estórias... “Nehanda Nyakasikana, mais conhecida pelo apelido de Ambuya (avó), organizou em Harare um levante que durou quase dois anos, reunindo a grande maioria da das tribos de etnia Shona. Durante esse tempo Ambuya aterrorizou a minoria branca devolvendo um pouco de paz ao povo. Nehanda foi capturada em 1898, por tropas sul-africanas que vieram socorrer os colonos de Cecil Rhodes, na época em franca retirada diante do avanço dos pretos rebelados”. Contava a professora ao ensinar sobre a luta por libertação no Zimbabwe. Os policiais queriam encontrá-la, acusariam Malika de todas as rebeliões jovens nas comunidades.
A outra peça importante era o policial Antônio Prado que se juntou ao instituto, no trabalho, via de perto como funcionava o extermínio dos jovens negros. Fisicamente aniquilavam a juventude, depois que notou o desaparecimento dos negros em outras comunidades, optou por lutar ao lado do povo. Naquela noite estava em serviço, mas passou às pressas na reunião, deixou com Akilah o endereço do local onde seriam desembarcadas as drogas vindas das fazendas de Minas Gerais e também algumas bombas de fabricação caseira, e se foi.
Akilah reuniu algumas pessoas do instituto, bolou o plano e trouxe o mapa na mente, pegou com Antônio Prado a mochila, saiu carregando nos passos uma única certeza, faria o que fosse preciso. Tinha firmeza nas pisadas.

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Quando o Tenente deu por si, no batalhão, já era tarde, duas rocam se aproximaram do fogaréu, nos olhos dos policias, labaredas contorciam dores, águas inundadas em suas retinas de nada adiantariam, a viatura estava em chamas, um deles comunicou o batalhão.
- Tenente na escuta?
- Diga soldado?
- Tragédia, viatura 734 QP capotada e queimada. Pelo jeito tenente, quatro policiais falecidos. Na escuta?
-Sim.
O Tenente amargou um nó em seu peito, segurou com ódio as lágrimas que se rebelavam e forçavam a tranca que era seu rosto.
-Esses filhos da puta vão pagar caro!!! Falou sem muita esperança.

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Akilah empunhava ódio em seus olhos, seu comportamento entregava a rebeldia jovem, caminhava a passos largos na avenida de pouco movimento. Lembrou-se de outras comunidades que foram arrasadas, eram vilas em pleno desenvolvimento e souberam como destruir através dos pontos de droga. Depois vinham as empreitadas sob o comando de empresários para instalar o plano de aburguesamento.
Akilah não se renderia a esse sistema. Amante das histórias de mulheres guerreiras, assim como na Divinéia, na Favela do Moinho conheceu várias dessas, eram mulheres de todas as idades que carregavam a comunidade nas costas. Cerrou os olhos para o horizonte, teceria com essas meninas o caminho do bem viver, com o olhar atento fitou a linda lua coberta de prata entrosada com o céu negro, em um piscar de olhos, sentiu que o manto da noite serviria de armamento para qualquer acaso.

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No fundo do batalhão o Prefeito, o Empresário e o Secretário de Segurança se dirigiram a sala onde Pedro fora levado para investigação, queriam que ele falasse de qualquer jeito. Tinham como provas de seu crime, centenas de fanzines, alguns papéis rabiscados de uma futura rádio comunitária, a intromissão de favelados na política, e a Cúpula do Prefeito queriam nomes. O garoto pendurado no pau-de-arara apanhou e muito, seus olhos de inchaço mal abriam, já havia passado por várias batidas policiais, mas como aquela, jamais. O lábio superior ferido e o sangue pisado, dilatavam na face o corpo sem força.
O Secretário de Segurança sabia da existência do Instituto João Cândido, mas não sabia nomes dos militantes e desconhecia o endereço da base, queria de Kenyatta todas as informações, inclusive o local onde estava escondida Malika. O Prefeito sem paciência fitou o negro que cadeado não abria a boca para nada.
Enquanto isso dois quarteirões adiante o caminhão baú carregava a cocaína sem preocupações, era a última cartada da Cúpula. A droga tinha endereço certo, a Favela do Moinho e fora escoltada por duas viaturas para não chamar a atenção. Embarcou avenida adentro sentido ao galpão, já estava tudo esquematizado.
O Tenente despertou Pedro no tapa! O Prefeito observou o semblante do garoto, enquanto o Tenente abriu as duas mãos e golpeou os ouvidos com tamanha violência que seus olhos deram voltas angustiantes. Ele tinha certeza que Kenyatta estava envolvido com o atentado à viatura, mas não podia matá-lo, fora trazido do morro por desacato, já tinha advogado e a comunidade correndo atrás do caso.
Kenyatta queria falar, as palavras saiam baixas. Se aproximaram do garoto, que em alucinação enumerava o nome dos seus comparsas:
- é nome que cê né, Samora Machel, Angela Davis, Zumbi dos Palmares, Dandara e o Pacifico Licutan.
O Secretário de Segurança pego em um ódio insano, não esperou o próximo nome e desferiu-lhe um soco na testa.

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Ardilosa, Akilah afugentou os soturnos sofrimentos que tanto nos acompanham e o policial Antônio Prado lhe passou as informações dizendo que, pelo terreno baldio seria a melhor maneira de ataque. Já tinha cavado o túnel que dava para dentro do galpão atrás do banheiro. Akilah olhou o movimento calada, na bolsa algumas bombas, panos e uma garrafa de gasolina. No bolso esquerdo da calça o isqueiro.
Observou na frente do galpão dois sujeitos esvaziando o caminhão, Antônio Prado já tinha alertado que para esse tipo de serviço eles trabalhavam com poucas pessoas. A garota procurou manter a calma, aguardou encostada na parede do terreno preparando seu armamento. O coração veloz feito uma pantera amaciava seu peito, depois de ajeitada as armas, com as pontas dos dedos docemente contornou as estrelas, à noite tranquila era um convite para o prazer.
Quando a madrugada deu seu esplendor, ela beijou o patuá que trazia no peito, adentrou o túnel, rasgava a terra com fúria, caminhou bem indo de encontro ao galpão. Calmamente ergueu o concreto falso que o Antônio havia ajeitado, viu um dos homens dormindo dentro do aposento enquanto o outro policiava a frente do barracão. Os pacotes bem organizados trariam facilidades.
Ela espalhou a gasolina entre os pacotes de cocaína, deixando um rastro próximo ao túnel da fuga, as bombas também ficaram entre as drogas. As mãos da garota suavam, o isqueiro falhou! O medo estampou o seu rosto, o policial em seu sono pesado respirou ruidosamente edificando em sua alma um gelo. Na terceira tentativa o isqueiro acendeu, com as passadas nervosas caminhou até o túnel de volta, antes de fechar o concreto falso ateou fogo no rastro de gasolina.

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-Tenente na escuta?
Do batalhão se ouvia os bombardeios, para o Prefeito era como se o mundo tivesse findado.
-Aqui soldado Antônio Prado, na escuta Tenente?
-Prossiga!
-Pelo jeito um morto, o outro com queimaduras graves. Aqui nada resta! O galpão está todo em chamas.
O Prefeito não acreditou no que ouviu, estava tudo certo, no rosto dos comparsas da cúpula medo e tamanha frustração. No compartimento que servira como sala de tortura, Pedro soltou um longo e doce sorriso, em seu rosto brotou primavera, e na noite de teus olhos um sol que desenhava a liberdade que há tempos morava em seu peito. Ele anunciava a cúpula que um novo dia estava nascendo.
Mais tarde em um barraco na Favela do Moinho, próximo ao Centro Cultural Palmares, um compositor cantava o derradeiro samba, a letra trazia uma poesia doce de determinação, um enredo com a cadência singular da comunidade. Em um lar próximo, Akilah se entregava a Jorginho, nua e toda, toda e nua. Cigarras entoavam uma canção serena e a noite demorando pra findar prenunciava que o batuque invadira os sossegados sonhos alvos.